Sirkis conta como sequestrou o embaixador alemão
Acredito que quase todos os brasileiros saibam quem é Alfredo Sirkis, um dos mais conhecidos político do Partido Verde – PV. Mas com certeza poucos conhecem seu passado como guerrilheiro durante a ditadura militar. Ele fazia parte do “aparelho” mais procurado do país. Graças a Sirkis e outros companheiros, 110 pessoas que estavam sendo torturadas foram salvas em troca do embaixador alemão e depois do suíço. Reproduzo aqui trecho de Os Carbonários: memórias da guerrilha perdida. Livro no qual Sirkis narra de modo eletrizante como um estudante secundarista se torna guerrilheiro urbano; os dilemas de Lamarca e a crise e destruição da guerrilha.
Gostaria sim é que nunca mais na história do Brasil se repetisse uma situação de opressão sangrenta, sufoco total e fechamento brabo que levasse uma geração de jovens a tomar as armas.
Sirkis, prefácio de Os Carbonários
NA KOMBI DO TRANSBORDO
Me acomodei no chão da kombi, atrás, junto a um caixote de madeira, mesinha, umas cadeiras de armar e dois tapetinhos enrolados. Onório arrancou aos solavancos. Dirigia mal, nervoso. Ivan ao seu lado, não ligava prá isso, com o corpo voltado para trás dava as instruções.
Negro, baixo e sólido, tinha dentes alvos bem afilados, um cavanhaque pixaim, visível contra a tez escura e um par de olhos audazes. Era seco e lacônico nas dicas:
- Vai ser às seis em ponto. Ele sai da embaixada quinze minutos antes. É muito pontual. Quinze prás seis temos que estar no local do transbordo. Bacuri comanda a ação e vem com a gente e o homem pro aparelho. É hoje de qualquer maneira. Ou vai ou racha.
Hoje de qualquer maneiro. A excitação e o medo misturam-se sob o meu nervosismo controlado. Pensava nos companheiros presos e me sentia cem por cento decidido. Prá aliviar a tensão ficava gozando as barberagens do Onório.
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