terça-feira, 12 de abril de 2011

Resenha do Livro: Versões e Ficção: O sequestro da História (parte3)

Resenha do Livro:

Versões e Ficção: O sequestro da História (parte3)

AS DUAS MORTES DE JONAS

Por Franklin Martins

Franklin Martins começa citanda a passagem bíblica sobre o profeta Jonas, que viveu duas vezes. Em uma só vida não conseguiu completar sua missão, então, Deus lhe deu outra vida tirando-o da boca de um peixe.

Segundo Martins, com o guerrilheiro Jonas que sequestro o embaixador americano aconteceu o contrário. Morreu duas vezes: uma morte acabou com seu corpo e a outra quer acabar com sua alma. A primeira morte de Jonas aconteceu nas mãos dos torturadores da OBAN – Operação Bandeirantes. Ele foi torturado numa sessão de dez horas de pau-de-arara e choque elétricos, espancamentos e queimaduras. Mas recusou-se a ceder qualquer informação a seus torturadores. Mataram-no selvagemente batendo com sua cabeça contra a parede até reduzi-la a uma pasta. O local da poça de sangue foi exibido como um troféu para outros presos políticos e o corpo até hoje está desaparecido.

A segunda morte de Jonas é mais recente, está no filme O que é isso companheiro? de Bruno Barreto. Trata-se de uma execução moral pois apresenta ao mundo todo Jonas como um monstro, um primata, um boçal, um desequilibrado quase psicopata. Jonas entra em cena recusando-se a cumprimentar os companheiros e logo em seguida os avisa que a primeira bala de sua arma está destinada ao companheiro que não obedecer as suas ordens e a segunda ao companheiro que defender o indisciplinado. Outra cena criticada por Franklin Martins foi a de Jonas encostando o cano da pistola na cabeça do embaixador ameaçando, aos gritos, matá-lo. Jonas é retratado como um mau caráter que o tempo todo tenta fazer intrigas e desqualificar aqueles que não pertencem ao seu grupo. Até mesmo trocou a escala da guarda para que o turno da possível execução fosse o do guerrilheiro-intelectual que ele odiava. O Jonas do filme é um insulto ao Jonas real que era um homem valente e determinado tranqüilo e atento, entusiasmado mas com os pés no chão. Não tinha a sofisticação intelectual de outros guerrilheiros mas em matéria de condição moral e experiência de vida não ficava a dever a nenhum deles.

Acima uma cena do Jonas (Matheus Nachtergaele) retratado no filme

Talvez Jonas desse mais valor a liberdade e dignidade que outras pessoas, não fosse de barganhar quando elas estavam em jogo. Isto, na luta armada, chamávamos de “firmeza ideológica” e hoje com simplicidade chamaríamos de caráter. O filme porém sentiu-se na obrigação de caluniá-lo, pintando-o como uma besta-fera. Martins explica que o fato do autor ter dado ao líder da ALN do filme o mesmo nome do Jonas da vida real foi uma intenção deliberada de confundir ficção com a realidade. Ele também critica o fato do autor humanizar o torturador e ter convertido os guerrilheiros em doidivanas e os militares em graduados homens sensatos que tentam conter excessos dos oficiais envolvidos diretamente com a tortura.

Franklin Martins pondera que apesar disso o filme O que é isso companheiro? não tem força para absolver a ditadura e nem justificar a tortura. Ele encerra este artigo afirmando que as coisas pequenas que aparecem no filme como quem fez isso ou aquilo são coisas sem importância, pois estavam todos no mesmo barco e arriscaram sua vida por igual. Mas o caso de Jonas não é uma coisa pequena, pois ele está sendo morto pela segunda vez e como na primeira sem ter direito de defesa.


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