terça-feira, 12 de abril de 2011

Resenha do Livro: Versões e Ficção: O sequestro da História (parte2)

Resenha do Livro:

Versões e Ficção: O sequestro da História (parte2)

FICÇÃO É JULGADA SOB AS LENTES DA HISTÓRIA

Por Helena Salem

Neste capítulo do livro, Helena Salem apresenta mais uma entrevista do jornal O Estado de São Paulo, desta vez com o Professor-titular de história contemporânea da UFF autor da tese de Doutorado A revolução faltou ao encontro, Daniel Aarão Reis Filho. Ele foi membro da Dissidência Comunista que mais tarde se tornou Movimento Revolucionário 8 de Outubro - MR-8 que participou em conjunto com a Aliança Libertadora Nacional – ALN do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

ESTADO — Como surgiu a idéia do seqüestro?

DANIEL AARÃO REIS Fº — Desde que nós constatamos que o Vladimir (Palmeira, detido no Congresso Estudantil de Ibiúna, em 1968) provavelmente iria ter uma prisão prolongada. O Vladimir não tinha cargo de direção na Dissidência, mas era a principal referência da nossa organização, uma liderança nacional estudantil e, dentro da organização, uma liderança política [...] Então, quando ele foi preso, nós tivemos esse movimento de libertá-lo, coisa que, aliás, o apavorou muito: ele tinha muitas dúvidas sobre a nossa capacidade — dúvidas acertadas , e temia que uma tentativa de libertação pudesse resultar em morte para nós e para ele mesmo. [...] a idéia foi trazida para a direção da organização, da qual eu fazia parte, pelo Franklin Martins, que tinha conversado com o Cid Benjamin a esse respeito. Nós ficamos muito encantados — eu, o Cláudio Torres, que fazia parte da direção também —, porque a perspectiva que o Franklin nos trouxe não visava a apenas pegar o embaixador e trocá-lo pelo Vladimir. Mas se trataria de uma ação que se inseriria num contexto mais amplo.

ESTADO — Que perspectiva era essa?

REIS — Os movimentos de guerrilha urbana tinham feito muitas ações até então, mas ações que eram muito isoladas, várias inclusive não se reivindicavam como ações revolucionárias. Embora a imprensa já tivesse noticiado que o Marighella estava atrás de pelo menos algumas daquelas ações, ainda havia uma certa atmosfera na sociedade de que aquelas ações poderiam estar sendo cometidas por criminosos comuns. [...]Então, a ação do seqüestro do embaixador norte-americano começou a ser pensada entre nós não apenas para ser trocada uma pessoa pela outra, mas como uma ação para apresentar à sociedade um movimento revolucionário, que era muito dividido naquele momento, mas tinha uma perspectiva comum.

ESTADO — A Dissidência Comunista, à qual vocês pertenciam, já tinha se tornado MR-8?

REIS — Não, a Dissidência ainda era Dissidência. Então, a idéia era fazer — inclusive porque tinha-se a informação, da ALN, que era a organização do Marighella, e de outros, de que no ano de 1969, no máximo, começariam as ações de guerrilha rural — um manifesto que falasse disso, que tentasse globalizar o conjunto das ações feitas até então e anunciar um próximo desdobramento da ação revolucionária, que seria a guerrilha rural. [...] Pensamos que, com um homem desses na mão, o embaixador norte-americano, não iríamos trocá-lo só pelo Vladimir, mas fazer uma lista. Primeiro, pensamos em cinco, depois em dez e depois em 15. [...]Logo depois da ação, pelo impacto que ela teve, nós tivemos a compreensão de que, se tivéssemos pedido a libertação de todos os presos políticos, a gente teria conseguido. Mas éramos muito imaturos para ter, naquele momento, a dimensão do peixe graúdo que nós havíamos pescado e o impacto que provocamos.

ESTADO — E por que a adoção do nome MR-8?

REIS — Nós adotamos, como Dissidência, esse nome como mais uma ação de contrapropaganda. Porque, no primeiro semestre de 1969, o Cenimar (órgão de informação da Marinha) tinha desbaratado a Dissidência do Estado do Rio, que era uma organização sem nome, porém tinha um jornal mimeografado que eles chamavam de 8 de outubro, em homenagem ao dia da morte do Che Guevara na Bolívia (08/10/1967). Quando o Cenimar estourou essa organização, não podia anunciar que estourou uma organização sem nome. Então inventou, batizou a organização — uma coisa que pouca gente sabe — como Movimento Revolucionário 8 de Outubro, para que tivesse maior repercussão.

ESTADO — E a ALN entrou por quê?

REIS — Éramos muito jovens, tínhamos pouca experiência, nossa organização armada era muito pequena, então procuramos a ALN porque julgávamos que ela tinha pessoas com mais experiência na luta armada. Depois da ação, refletindo, ainda naquela época, concluímos que nós tínhamos condições de fazer a ação sozinhos, porém tínhamos uma insegurança muito grande.

ESTADO — E qual foi o papel do Fernando Gabeira em todo esse episódio?

REIS — Bom, o Gabeira, como jornalista muito talentoso, tinha vindo para a organização em 1968 e passou a atuar num organismo que chamávamos de Frente das Camadas Médias: uma frente de atuação na classe média.

[...] Na verdade, tínhamos dois focos de ação principais: as ações armadas e as ações de agitação nas fábricas. E um terceiro foco importante, de apoio a esses dois, era o foco nas classes médias, e o Gabeira fazia parte dessa frente. a única maneira de termos aquela casa sob controle estrito da organização era colocar um militante alugando a casa. O Gabeira era o único militante que tinha essa condição, era mais velho para a época, já tinha sido jornalista

ESTADO — E como ela se tornou o “aparelho” para esconder o embaixador norte-americano?

REIS — Quando resolvemos fazer o seqüestro, e discutimos isso na Frente de Trabalho Armado (FTA) e na direção, tínhamos resolvido uma série de questões que deveriam preceder a ação. O Franklin era o cara mais entusiasmado. Eu diria mesmo que, sem ele, talvez o seqüestro não tivesse se realizado. Não só ele veio com a idéia mais consolidada, como ele lutou muito para implementá-la. [...] A gente tinha de descobrir uma casa em ótimas condições para guardar o embaixador etc. Poucos desses requisitos tinham sido alcançados quando foi se aproximando a data ideal para a ação, que era a Semana da Pátria, e o próprio aparelho para guardar o embaixador não existia: a gente não tinha conseguido alugar uma casa em boas condições para isso. Aí, por insistência do Franklin, resolvemos levar o embaixador para a casa da nossa imprensa clandestina.

ESTADO — A personagem da Cláudia Abreu tem alguma coisa da Vera Sílvia?

REIS — Tem, embora o filme se permita dizer que a Cláudia transou com o chefe da segurança do embaixador, o que na vida real não aconteceu. É uma pimenta que os autores do filme colocam na história, que, a meu ver, não precisava disso para se tornar emocionante. A história tem uma carga de emoção muito forte para exigir essa pimenta que eles resolveram pôr. [...] O Gabeira entrou na ação assim, ele só soube do que ia acontecer no próprio dia da ação. Nós, naturalmente, o prevenimos para que ficasse em casa, porque seria realizada uma grande ação. Mas só soube mesmo qual seria essa ação quando o embaixador chegou em casa. Ele não teve nenhuma participação na elaboração da ação. Nesse sentido, o filme mente conscientemente, ao atribuir a idéia do seqüestro ao Gabeira.

ESTADO — E também ele é colocado como um personagem mais crítico que os outros, sofrendo por isso o desprezo dos demais guerrilheiros...

REIS — Olha, o Gabeira foi um intelectual, como muitos naquela época, que quando veio para a luta armada abdicou de toda uma visão crítica a respeito das concepções e dos métodos da luta armada. [...] No livro O que é isso, companheiro?, o Gabeira apresenta toda uma visão autocrítica que a esquerda foi acumulando no exílio, uma autocrítica que foi se elaborando progressivamente, depois da queda do Allende, no Chile, e o Gabeira apresenta essa visão como sendo dele, indivíduo, e como se ele tivesse tido uma visão desde 1964. Ele não só individualiza a autocrítica como a coloca retrospectivamente, como se nunca tivesse sido diferente. E isso é uma falsidade. Se o Gabeira tivesse essa crítica aguda do processo todo, ele nunca seria admitido numa organização de esquerda. [...] A aventura exigia uma completa adesão às concepções catastróficas que eram as nossas, a crença sem limites numa revolução que efetivamente não estava em curso e assim por diante.


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