Resenha do Livro:
Versões e Ficção: O sequestro da História
(parte final)
Trailer do documentário Hécules 56 feito pelos revolucionários que capturaram o embaixador americano
O QUE É ISSO COMPANHEIRO?: A FICÇÃO RESISTE SEM A HISTÓRIA?
Por Consuelo Lins
Consuelo Lins começa descrevendo o roteiro do filme: Um embaixador é seqüestrado por um grupo de jovens inexperientes e sem grandes atrativos como personagens. Liderados por um fascistóide que os ameaça todo tempo, cometem uma série de besteiras que leva a polícia a localizar a casa onde se escondem, mas conseguem mesmo assim escapar. Quem os persegue está em crise com a namorada, porque dá “caldos” em alguns “garotos ingênuos”, mas nem por isso desiste do seu dever. Seu chefe é um educado militar que o impede de alcançar os seqüestradores no momento da fuga. (p.151) Ela afirma que o roteiro é inverossímil para qualquer filme e não teria qualquer interesse se não estivesse enraizado na História recente de nosso país. O filme estabelece uma estranha relação com os acontecimentos. Por um lado, a História serve como um referencial para a ficção e por outro, o filme não se sustentaria e teria impacto se não tivesse a história como pano de fundo. Lins afirma que apesar das imagens da, da narrativa e dos personagens do filme serem ruins a “aura dos anos 60” se mantém: A luta pelo mundo melhor e a crença revolucionária são o que havia de mais belo, fascinante e inquietante naquela época. No filme Jonas é mostrado como um fascistóide e os demais guerrilheiros, com exceção de Toledo e Gabeira, não passam de jovens tolos e vazios, mas a ousadia do sequestro e a vitalidade dos anos 60 fazem com que “montemos” estes personagens de outra maneira. Os telespectadores “montam” mentalmente as partes que faltam no filme. Consuelo Lins critica o fato do filme ao tornar o torturador complexo e simplificar ao extremo os seqüestradores não dá ao filme nenhuma modernidade e o torna indigno dos acontecimentos. Ela faz um alerta que as discussões em torno do filme não podem ficar numa disputa entre ficcionistas e realistas, pois história e a ficção não existem em separado e a muito tempo que é da mistura de ambos que o cinema moderno se inventa. Se discutirmos o filme de uma forma estética apenas estaremos ajudando na sua divulgação.
PELA PORTA DOS FUNDOS
Por Alípio Freire
Alípio Freire analisa de forma detalhada o livro de Gabeira. Ele afirma que o livro foi separa do por “partes” e não por capítulo. Nos depoimentos os juízes ouvem as partes. Ter como objeto pessoas e fatos reais diferencia o depoimento de qualquer manifestação ficcional. Porém o Gabeira do livro é ficcional porque o Gabeira do livro tem formulações crítica que ele não tinha em enquanto militava na luta armada. Estas formulações foram elaboradas anos depois, no exílio. E é com elas que o autor tenta desqualificar as esquerdas ao longo do trabalho. O autor se confunde com o narrador e com a própria História o que torna o livro todo ficção que tem como estratégia apropriar-se da virtude alheia e, ao mesmo tempo, ridicularizar aqueles de quem lhe espoliou o mérito.
Textos e contextos
Um depoimento torna-se verídico perante o público através das documentações que reúne e/ou reflexões que articula e/ ou pela legitimidade do autor. Gabeira em seu livro aposta na terceira narrativa e para se legitimar se coloca em uma posição maior do que o dos outros. O livro é uma peça narcísica e um documento de uma transição conservadora que na época já havia dado anistia recíproca. Pois ainda que no Brasil as forças conservadoras tenham mantido sempre no controle a abertura e a transição. O final dos anos 70 assistiu a uma grande ascensão do movimento operário, sindical e popular, dos quais a esquerda ainda disputava hegemonia política e ideológica.
Os recursos e os métodos
Segundo Freire o livro usa técnicas fascistizantes, das sombras, técnicas de condicionamento subliminar para atingir a subjetividade do leitor pela porta dos fundos. Levando em conta os recursos literários que mobiliza o livro pode ser dividido em 3 blocos.
O primeiro cujo tempo real abrange do golpe civil-militar de 1964 até setembro de 1969 e que engloba os 15 primeiros capítulos, estrutura-se como uma peça de teatro de revista. Numa série de sketches vai se costurando entre uma piadinha e outra o ficcional Gabeira. Os outros militantes são constituídos linearmente enquanto personagens ao passo que Gabeira é complexo e profundo. O ficcional Gabeira é um poço de bom senso e de outras virtudes ao gosto de uma classe média conservadora. Alípio afirma que a Esquerda caricata, no livro, é constituída de forma cumulativa, ao longo dos diversos casos que narra. No filme Barreto não teria tempo para construir esta caricatura em poucos episódios então recrutou um elenco de comediantes para protagonizar os militantes.
O encantamento dos espelhos
Freire afirma que consumado o leitor aquela lógica de teatro revista, agora Gabeira usa na técnica narrativa do livro a idéia do duplo, do simétrico, do simultâneo e do contraponto. É com esse argumento que o autor passará ao leitor que ele e o embaixador eram dois iguais.
O texto do manifesto dos seqüestradores e duas cartas de Elbrick as esposas são apresentados transcritos e em itálico. O que lhes confere o mesmo nível de realidade e importância. Além disso Gabeira tenta, sem escrever, fazer o leitor achar que quem escreveu o manifesto foi ele. Os militantes de esquerda já haviam sido desqualificados no primeiro bloco do livro, logo , não poderiam escrever um texto como aquele: O manifesto é tratado ao longo do capítulo (p. 113 a 115) na primeira pessoa do plural — o que pressupõe diversos autores ou um plural majestático —, e apenas no parágrafo que citamos acima surge, depois de uma enxurrada de sujeitos sem os complementos nominais necessários à clareza do texto ou simplesmente indefinidos, um autor singular: “o redator”. Aliás, uma palavra muito bem escolhida, pois logo abaixo da sua superfície podemos ler “jornalista”. O leitor foi bombardeado desde o primeiro capítulo do livro com a informação de que “Gabeira é jornalista” . (p161)
O argumento narrativo do duplo simétrico se dá quando da preocupação de ambos – como cabe aos heróis – com o destino de damas desprotegidas: o embaixador com sua esposa Elviry e o ficcional Gabeira com Helena.
O contraponto ocorre no tratamento da figura de Joaquim câmara Ferreira – o Toledo. Enquanto o embaixador da mesma geração de Toledo tem inteligentes diálogos com o redator-ficcional-Gabeira, as intervenções de Toledo são para pedir coisas tolas ou descabidas.
A técnica da simultaneidade ocorre quando Gabeira narra que “Enquanto Vera examinava a casa do embaixador em botafogo, buscávamos [primeira pessoa do plural] a casa onde ele ficaria quando seqüestrado. Gabeira induz o leitor ao erro quando diz que a casa que estava procurando para alugar seria o cativeiro do embaixador. O objetivo do aluguel da casa era para abrigar uma gráfica clandestina do MR-8. Segundo o ex-militante do MR-8 Daniel Aarão Reis Filho. Gabeira só soube no dia do sequestro o que os outros militantes planejavam. Ele não teve nenhuma participação na elaboração da ação.
Freire também denuncia a estratégia dos autores do filme de esconder as questões políticas e transformar a luta pela causa em transtornos emocionais como na cena em que a personagem Renée liga para o pai. Dá a entender que ela entrou para a guerrilha porque não recebia atenção do seu pai.
Freire afirma que a idéia de colocar os militantes como um punhado de jovens desajustados manipulados por duas velhas raposas nada confiáveis (Toledo e Jonas). Isso atende aos conceitos neoliberais de ver os militantes revolucionários como atrasados, jurássicos, obsoletos e ridículos.
“Humanizando”
A construção da narrativa do terceiro bloco do livro (último capítulo: clandestinidade, prisão, tortura e libertação do personagem central) obedece à estrutura das epopéias e é legitimada no inconsciente coletivo e que sustenta invisivelmente o texto. É a coroação do herói que depois de todas as aventuras retorna ao lar. Mas aqui se trata das epopéias encomendadas por príncipes a um poeta ralo em termos literários, bem como de caráter. O príncipe é a transição conservadora e o herói é o personagem que de ficção que o leitor pensa ser o real autor. Nesse trajeto, o personagem visita todas as classes sociais dominadas e, uma a uma, passa a “humanizá-las”, descaracterizando as suas situações, os interesses e papéis sociais e políticos dessas classes. Para tanto, lança mão de uma subliteratura melosa, cuja matriz varia caso a caso. “Humanizadas” as classes, “humaniza-se” também a repressão. Aqui a estratégia segue dois caminhos: primeiro (e outra vez) a técnica cumulativa; segundo, a apresentação da tortura enquanto fruto da razão. (p. 165)
Além disso, Gabeira cita todos os gestos “bonzinhos” de funcionários da repressão que parece transformar a exceção em regra. A tortura é a face da política de Estado conduzida da mais alta cúpula do governo de modo racional. Mas como os comandantes civis e militares são invisíveis no livro, a natureza do regime não é o seu objeto, dirigentes e regime ficam absolvidos.
No filme Serran abandona a técnica cumulativa por causa do tempo do filme e coloca dois policiais jovens e cria um personagem militar moderado que é outra licença poética.
Passamos para a construção final da catarse: Em ritmo de thriller, o personagem é perseguido, baleado e sagrado herói na tortura, desembocando, por fim, na cena cinematográfica e plasticamente mais bem construída do filme: a reconstituição da foto histórica do embarque dos presos trocados pelo embaixador alemão ocidental von Holleben, com direito a Maria (Fernanda Torres) chegando de cadeira de rodas, zoom in, closes e tudo. (p.167) Todos choram, purgam suas culpas e saem reconciliados com o mundo e suas consciências.
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