domingo, 19 de junho de 2011

Guerrilheiro Carlos Eugênio: Aprendi a sobreviver, não me serve de nada, não sei viver

Guerrilheiro Carlos Eugênio

Aprendi a sobreviver, não me serve de nada, não sei viver

Carlos Eugenio Paz

Reproduzo mais um trecho do livro Viagem à luta armada. Nesta parte do livro Carlos Eugênio está no seu apartamento no exílio em Paris, deitado numa banheira e entorpecido por drogas, que não curam, lógico, mas ajudam a aliviar a dor das lembranças sombrias: das vidas que se perderam na guerrilha que fracassou, da revolução perdida. Ele se lembra da intenção de fugir para Cuba para escapar do serviço militar e da despedida do pai. Ao ler este trecho fico pensando em quantas pessoas neste breve, louco e já tão distante século XX tiveram que fazer a mesma despedida: soldados vermelhos na Rússia; Partisans na Itália; Espartaquistas na Alemanha; todos tiveram que deixar suas famílias, seus entes queridos. Pois a partir dali suas vidas seriam em prol da revolução e nada mais importava a não ser a luta por uma sociedade melhor.

DE VEZ EM QUANDO sabemos que alguém vai sumir. Despedidas disfarçadas para não deixar claro que a ausência vai ser longa, poucos de nós estamos informados: Fabiano está formando um novo contingente para ir treinar guerrilha em Cuba. Maior do que o primeiro e, dessa vez, os meninos do Rio terão representantes.

Rodamos um panfleto, Felipe fuma mais que de costume, está elétrico, ansioso.

— Depois daqui vamos tomar um chope sozinhos e sem hora pra acabar, tenho novidades importantes.

Nessa época as novidades sendo sempre boas, fico no mesmo estado de Felipe. Abreviamos as despedidas e recusamos as ofertas de programas com certa dificuldade, sexta-feira as pessoas se tornam insuportáveis com seu frenesi em busca do prazer.

Pegamos um ônibus na Nossa Senhora de Copacabana e vamos a nosso bairro, o Flamengo. Hoje, o Lamas não dá, está lotado, sentamos no Venadense de sempre. Chope na mesa, garçom distante, Felipe desembucha.

— Nós vamos treinar na Ilha, Fabiano falou comigo ontem, deixaremos o colégio, largaremos tudo e viajaremos em alguns meses.

— Beleza, finalmente dedicar todas as horas do dia à Revolução. Conta mais, abre o jogo.

— Fabiano quer saber se há mesmo possibilidade de ser dispensado do serviço militar. Contei sobre o tal coronel de Alagoas que prometeu estudar seu caso.

— Não senti firmeza naquele cara, veio com uma conversa que servir faz bem aos jovens, molda o caráter e ensina a disciplina, mas se for o caso não me apresento e dane-se, vou servir no exército guerrilheiro.

— Aí você se queima sem necessidade. De qualquer maneira vamos encontrar Fabiano domingo à tarde e conversaremos com calma. Meu amigo, meu companheiro, já a pensou a gente em Cuba?


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