terça-feira, 27 de setembro de 2011

Deus é brasileiro: por Douglas Prima


Deus é brasileiro
Por Douglas Prima


Essa afirmativa sempre me assustou. Antes mesmo de entender a verdade por trás dos panos, já tinha concluído que havia muita coisa errada com a famosa e usual frase. Em primeiro lugar, pressupondo-se que deus realmente exista – o que é cientificamente impossível afirmar dadas às circunstâncias em nos encontramos, também não convém entrar nesse ponto agora – ele deveria compartilhar sua naturalidade com povos muito mais antigos que nós. Os egípcios ou os persas, talvez. Teriam os celtas, até mesmo os maias, apesar de estes últimos me parecerem pouco prováveis. Existiriam ainda muitas pressuposições de povos muito mais antigos que habitavam o velho mundo para afirmarmos arrogantemente que o ser supostamente mais antigo do universo compartilharia nossa mesma nacionalidade.
Outro ponto a ser seriamente considerado nesse momento seria o seguinte: se deus, que sempre existiu, fosse brasileiro, então, o universo, que passou a existir depois de deus, seria... O Brasil? Ao afirmarmos que deus é brasileiro estamos compartilhando a idéia de que deus nasceu no Brasil, por isso o fato de ser brasileiro, entretanto, me confunde o seguinte: se deus sempre existiu e o Brasil, ou um simples pedaço de terra, posteriormente denominado continente americano e ainda depois chamado de Brasil, veio a ser sua terra natal, então o Brasil sempre existiu? O nosso país não foi criado? Então nossa pátria é deus? Teríamos uma ‘quadrindade’assim?
Deixando os pensamentos tortos de lado, sabendo que muitos já desistiram da empreitada de tentar ler o texto, após a sua chata introdução, contrariando o atrativo tema, falemos do que realmente importa, afinal nossas origens são a nossa menor preocupação no momento. Brasileiro gosta de ser o coitadinho. Não. Não gostamos de SER, mas gostamos de PASSAR essa imagem. É diferente e sabemos disso. Passamos uma imagem de que tudo o que vem de fora é melhor. Sapatos importados, carros importados, relógios, equipamentos eletrônicos, vídeos games e uma série de nomes estrangeiros aderidos ao nosso tão vasto vocabulário. Outro dia li em um fórum que até os cigarros americanos, da mesma marca que os daqui, porém produzidos lá, eram melhores.
Isso já é um fato. Estamos conformados que o que vem de fora é de fato melhor, não só por ser mais caro, mas por ter mais ‘glamour’. Ao afirmarmos que deus é brasileiro, corroboramos essa imagem de inferioridade. Ter deus ao nosso lado, não nos torna mais fortes, mas, pelo contrário, mais fracos. Somos ainda predominantemente católicos e, ainda que fôssemos protestantes, ainda seríamos um país cristão. Assim sendo, o tal deus reverenciado como nosso compatriota deve ser o deus cristão. Esse deus cristão, no decorrer de sua história, tem fama de fazer seu povo servir como escravo. 400 anos de escravidão egípcia não foram o bastante para o Pentateuco. Síria, Medo-Persa, Babilônia e ainda os Romanos. Os períodos de escravidão sempre terminaram em guerra e morte e com deus dando a vitória a seu povo sofrido e infiel.
Imagino que seja isso que o brasileiro esteja esperando quando afirma que deus é brasileiro. Uma reviravolta como nos filmes onde o mocinho revida depois de muito apanhar. Algo sobrenatural e romântico. Revelador e assustador. Atemorizante e tranqüilizante. Uma vitória sem esforços. Se deus é por nós, então quem será contra? Não precisamos lutar. Na hora certa, ele agirá. Ele, não nós. Conformismo.


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